segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Babel

E vai passando. Rápido demais. Engolido por uma nostalgia estranha do inacabado.
Começo a me perguntar como foi que aconteceu toda essa vontade de dar despedida a terra que se quer abaixar a cabeça e beijar de amor. A essa terra que traz desejo. Que guarda consigo a mão que se quer apertar, o peito que se quer abraçar e a boca de sabor envenenado que se quer beijar. Vai ver então a vontade apareceu depois de provar esse saboroso veneno doce que depois te faz afogar a cara na espuma de um travesseiro que nunca foi bom pra dormir, muito menos pra se afogar.
Esse adeus premeditado vem acompanhado de uma estada eterna no ambiente quase selvagem de relações que não se sabe quando findarão. Essa insustentabilidade toda que paira sob o ar ,que ora cheira lavanda, ora cheira bosta, faz buscar a corrente de mar que faça levar à terra de ninguém.
Terra que vai me mandar de volta, e fazer parar com os presságios ilusórios.

domingo, 4 de setembro de 2011

Pra você que quer saber do amor

Na hora aceitei, acho que por saudades e por simpatia. Mas agora bateu uma certa raiva, uma indignação (ou qualquer outra coisa que dá vontade de gritar) por ter que te contar sobre o amor. Que pedidozinho mas ínfimo esse! Um tanto sacana eu diria, não importa quão boa sejam suas intenções. Onde já se viu...
Mas vamos lá, vou me expressar pela exemplificação.

Teve um caso que foi de amores diferentes, por toda parte. A minha nega de olhos de mar me ligou pedindo pra ir até o mar com ela, pra encontrar o brilho de seus olhos. Ela teve seu caso de paixão em alto mar, que palpitou no peito dela, mesmo depois de voltar pra terra firme. E ela queria mais... Então eu fui com ela até o porto procurar por ele. E tinha o nervoso do reencontro, o suor das mãos que se misturavam quando ela apertava a minha com tanta força que dava pra sentir o coração dela batendo ali mesmo, na palma das mãos.A angústia de não encontrá-lo, e a impaciência. E o êxtase quando se encontraram os olhares. Ambos os pares de olhar feitos com a água do mar. E eu ali de lado, com o livro aberto, espiando aquela cena bonita pelo canto do olho.
Depois veio aquela alegria toda que faz a gente cantar alto um samba na rua.
Tá aí o primeiro caso. A paixão surpreendida dele, a paixão fugaz dela, e o meu amor que estava por perto pra impedir que o mar roubasse qualquer gota de olhar.

Minha mãe sempre me lembra indignada, de quando eu era pequena e não dormia na minha cama. Eu, no meio da noite, ia pro quarto dos meus pais e me deitava entre eles. É, isso mesmo, no meio, o centro das atenções. Ela me colocava de volta na minha cama, e eu voltava. Então meus pais começaram a trancar a porta e eu não podia mais entrar, tinha que dormir na minha própria cama. Era uma criança carente, querendo amor. Meus pais, amantes ativos, querendo consumar o deles.

Ah, é amor também quando você fica agarrando seu namorado e vocês ficam que nem bestas dando gargalhadas escandalosas enquanto eu tento me concentrar. Lanço olhares mortais pra ver se vocês se tocam, e como vocês não o fazem ,sou obrigada, por amor mesmo, a entrar no meio pra participar.'' Quando o amor entrou no meio, o meio virou amor''.

Tem também eu e a minha irmã.Passamos o ano inteiro entre tapas e beijos. Mais tapas do que beijos pra falar a verdade. A gente se gosta, mas não pode se ver. As brigas são feias, e eu fico proferindo aquelas palavras de ódio que deixam qualquer pessoas de boca aberta. Mas esse ódio é passageiro. O natal na nossa família é bem bacana, e todo mundo tem que se abraçar e falar coisas legais um pro outro. E daí, eu, sempre zangada com minha irmã, fico planejando falar alguma coisa moralizante, alguma coisa que finja uma indiferença qualquer. Quando chega na nossa hora de abraçar o planinho babaca vai por água abaixo, eu choro muito e digo o quanto a amo. E amo mesmo. Esse é o nosso amor fraterno inegável e irredutível.

Acho que era amor também quando eu ficava cantando a oração da banda mais bonita da cidade, tentando curar todas as mágoas que aquele sorrisinho despretensioso me trouxe. Era amor sem reciprocidade, um amor instântaneo que se prolongou e quase invadiu as alas da eternidade. Da eterna rejeição, eterna falta de envolvimento, de conquista.Bobagem pensar que as lágrimas de amor serão doces. Elas são mais salgadas que qualquer outra.

e etc.,e etc.

No meu livro de auto ajuda vem dizendo que o amor está em todo lugar, e que eu sou amorosa e digna de amor. Só pode ser verdade. Que o amor acaba numa esquina e começa na outra.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

De presente

- E me levou pro inferno sem minha lucidez...
Ah, são seus. São seus então os olhos que eu não posso olhar com medo de me perder. Dá pra se afogar neles. Dá pra eu me afogar em todas as mágoas que você guarda dentro deles, e que vai fundo... Sempre soube que seu olhar era triste.
Tá na hora de chorar essas mágoas, esse azedo no seu peito. Chora no meu colo todo o mar de lágrima que você bem sabe que vai navegar. Vai dar a volta no mundo nesse seu pranto pra perceber que tudo começa aqui, dentro do teu lar.
Vai ser bonito quando seu olhar sorrir.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Luz dos Olhos

Foi por não limpar a vidraça, que a luz não entra mais. Quarto escuro esse agora. E escuridão dá sono. E pra evitar o sono eterno tenta dar umas voltas, porque sabe que aquele quarto é bem grande. Mas vai trombando em muita coisa. Derruba as caixinhas que não devem ser abertas, e pronto, passa muito sufoco tentando fechá-las. Tarefa muito díficil nesse escuro todo que se confunde com cegueira. E as caixinhas, se não fechadas às pressas, começam a escandalizar. E o escuro se mistura com o insurdecedor grito da caixinha, ou de quem tava dentro dela pra não sair mais. E do desespero vem as lágrimas que misteriosamente limpam as vidraças, e torcem pra poeira não levantar por um tempo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A breve nova vida que já é passada

Me bateu uma saudades daqueles dias que sozinha eu acordava porque a gaivota piava alto pra proteger o filhote e porque o sol já raiava forte desde o comecinho da manhã. Eu enfiava a cara por debaixo das cobertas pra tapar a luz, e quando eu achava que ia pegar no sono denovo a cachorrinha empurrava a porta daquele quarto que era na hora meu, e pulava em cima de mim fazendo bagunça. Daí eu percebia que já passava da minha hora de acordar mesmo, e ia cambaleando pro banheiro lavar o rosto, e sempre esquecia a toalha no quarto, e corria pra lá depois pra não pingar no chão.
Eu abria a cortina pra ver como estava o clima lá fora, e sempre via ventar muito, e até me assustava achando que ia passar frio. Depois de muita dúvida, colocava uma roupa e descia pra tomar café. Comia muito mais do que como por aqui, acho que por educação mesmo. O que eu queria era só tomar vários copos daquele suco de laranja de caixinha que eu não acreditava como era gostoso.
Depois de escovar os dentes e passar a maquiagem eu pegava a bolsa e a chave e ia esperar o onibus que nem demorava muito. Tinha aulas junto com as italianas que ficaram na memória afetiva, e com os turcos, com a dinamarquesa, com o polonês, com o espanhol, com o sueco, e com aquele russo novinho que me dava nos nervos. No intervalo das aulas eu sempre tomava aquele chá que eu aguava porque era muito forte, e colocava bastante açucar e as vezes leite pra ficar mais inglês.
As vezes eu pegava a bicleta no fundo do quintal e saia pra pedalar na beira da praia. Depois eu me jogava com a bicleta em cima das pedrinhas e sentia bater no rosto aquele vento que já deve ter soprado por aqui também.
Sempre rolava uma programação pra noite, e a gente se encontrava na frente do letreiro luminoso pra entrar na festa , onde a gente sempre encontrava as mesmas pessoas e ficava buscando uma embriaguez que no fundo era engraçada. Depois eu já queria dar megulho no mar e buscar as luzinhas que soltavam pro céu e que me encantavam tanto.
Até o fim dos dias eu tentei ensinar a ela a música bonita das águas de março, e ela se esforçava de verdade pra aprender, e cantava com um sotaque que me tirava sorriso dos lábios e que me enchia de alegria.
E tinha também os dias que eu pegava o trem e ia solitária mesmo pra todas aquelas cidades diferentes, onde eu chegava e ficava vagando e até que eu conseguia conhecer tudo muito bem.
Num dia eu voltei de uma das cidade que era longe longe, e que eu fiquei umas 3 ou 4 horas no trem, e fui direto da estação até o píer, correndo muito, que demorei bastante mesmo pra respirar normal denovo. Daí eu fui com aquele menino gentil e tolo e a menina dos olhos bonitos que combinavam com o sorriso, e que me ensinou a falar palavrão, naquele negócio que girava muito , deixava tudo de ponta cabeça e fazia parecer que eu ia mergulhar com tudo naquele mar escuro coberto de noite. E eu via todas as luzes da cidade de um jeito muito legal, que não saiu da minha cabeça.
Os dias passavam e eu curtia muito aquela vida que eu estava levando. Mas eu precisava ir embora. Comprei umas balas gostosas no mercado, e umas flores pra senhora, que no final das contas se encabulou demais e não tirou a foto que tinha prometido tirar comigo.
Do nada eu me vi atravessando de volta o oceano que pra mim é um só.O mundo já tinha girado inteiro, e eu voltava pro de antes. Fiquei arrepiada, e queria chorar todo aquele aperto de saudades prematuras que eu sentia no peito. As pernas tremeram muito, mas teve uma hora que elas pararam quietas e eu fui andando pra frente denovo, com um gostinho bom da vontade de lembrar.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sob o céu

Acho que vai ser nas margens de um ex-marginalizado, o sol já cumprimentando a lua, cházinho na garrafa térmica, e na outra margem um saxofonista brincando de musicar. O que vai ser não sei. Talvez seja o cão da rua querendo chamego. A rosa caída, das mãos feridas. Chuva que não castiga. Lágrima despercebida. Estranha companhia. Rasgo na página já escrita...

domingo, 30 de janeiro de 2011

Quero ver o que voce faz

Vou é me mudar pra uma vilazinha, miúda o suficiente pra me certificar de que passeando meus olhos dariam de encontro aos seus.E o que voce faz? Ah, sorri pros olhos brilharem feito gota em petala de flor, flor laranja. E pega do chão a flor laranja pra confirmar a comparação. E poe a flor entre os dedos, como se fizessem parte das mãos. E me envolve em seus braços, fazendo de mim outra parte de ti. Fazemos belo o encontro dos corpos, no cantinho.Belo o encontro das bocas. Belo o encontro dos olhos que deu início ao ciclo infindável de encontros. Olhos nos olhos.

De metrô

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe aquela árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas,
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam o que realmente parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que meus sentidos aprenderam sozinhos:
-As coisas não tem significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Alberto Caeiro

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O outro céu

Acontecia-me às vezes que tudo ia por si mesmo, abrandava-se e cedia terreno, aceitando sem resistência que se pudesse passar assim de uma coisa a outra. Digo que me acontecia, se bem que uma esperança estúpida me faça crer que ainda pode acontecer.

Cortázar