terça-feira, 24 de maio de 2011

A breve nova vida que já é passada

Me bateu uma saudades daqueles dias que sozinha eu acordava porque a gaivota piava alto pra proteger o filhote e porque o sol já raiava forte desde o comecinho da manhã. Eu enfiava a cara por debaixo das cobertas pra tapar a luz, e quando eu achava que ia pegar no sono denovo a cachorrinha empurrava a porta daquele quarto que era na hora meu, e pulava em cima de mim fazendo bagunça. Daí eu percebia que já passava da minha hora de acordar mesmo, e ia cambaleando pro banheiro lavar o rosto, e sempre esquecia a toalha no quarto, e corria pra lá depois pra não pingar no chão.
Eu abria a cortina pra ver como estava o clima lá fora, e sempre via ventar muito, e até me assustava achando que ia passar frio. Depois de muita dúvida, colocava uma roupa e descia pra tomar café. Comia muito mais do que como por aqui, acho que por educação mesmo. O que eu queria era só tomar vários copos daquele suco de laranja de caixinha que eu não acreditava como era gostoso.
Depois de escovar os dentes e passar a maquiagem eu pegava a bolsa e a chave e ia esperar o onibus que nem demorava muito. Tinha aulas junto com as italianas que ficaram na memória afetiva, e com os turcos, com a dinamarquesa, com o polonês, com o espanhol, com o sueco, e com aquele russo novinho que me dava nos nervos. No intervalo das aulas eu sempre tomava aquele chá que eu aguava porque era muito forte, e colocava bastante açucar e as vezes leite pra ficar mais inglês.
As vezes eu pegava a bicleta no fundo do quintal e saia pra pedalar na beira da praia. Depois eu me jogava com a bicleta em cima das pedrinhas e sentia bater no rosto aquele vento que já deve ter soprado por aqui também.
Sempre rolava uma programação pra noite, e a gente se encontrava na frente do letreiro luminoso pra entrar na festa , onde a gente sempre encontrava as mesmas pessoas e ficava buscando uma embriaguez que no fundo era engraçada. Depois eu já queria dar megulho no mar e buscar as luzinhas que soltavam pro céu e que me encantavam tanto.
Até o fim dos dias eu tentei ensinar a ela a música bonita das águas de março, e ela se esforçava de verdade pra aprender, e cantava com um sotaque que me tirava sorriso dos lábios e que me enchia de alegria.
E tinha também os dias que eu pegava o trem e ia solitária mesmo pra todas aquelas cidades diferentes, onde eu chegava e ficava vagando e até que eu conseguia conhecer tudo muito bem.
Num dia eu voltei de uma das cidade que era longe longe, e que eu fiquei umas 3 ou 4 horas no trem, e fui direto da estação até o píer, correndo muito, que demorei bastante mesmo pra respirar normal denovo. Daí eu fui com aquele menino gentil e tolo e a menina dos olhos bonitos que combinavam com o sorriso, e que me ensinou a falar palavrão, naquele negócio que girava muito , deixava tudo de ponta cabeça e fazia parecer que eu ia mergulhar com tudo naquele mar escuro coberto de noite. E eu via todas as luzes da cidade de um jeito muito legal, que não saiu da minha cabeça.
Os dias passavam e eu curtia muito aquela vida que eu estava levando. Mas eu precisava ir embora. Comprei umas balas gostosas no mercado, e umas flores pra senhora, que no final das contas se encabulou demais e não tirou a foto que tinha prometido tirar comigo.
Do nada eu me vi atravessando de volta o oceano que pra mim é um só.O mundo já tinha girado inteiro, e eu voltava pro de antes. Fiquei arrepiada, e queria chorar todo aquele aperto de saudades prematuras que eu sentia no peito. As pernas tremeram muito, mas teve uma hora que elas pararam quietas e eu fui andando pra frente denovo, com um gostinho bom da vontade de lembrar.