Na hora aceitei, acho que por saudades e por simpatia. Mas agora bateu uma certa raiva, uma indignação (ou qualquer outra coisa que dá vontade de gritar) por ter que te contar sobre o amor. Que pedidozinho mas ínfimo esse! Um tanto sacana eu diria, não importa quão boa sejam suas intenções. Onde já se viu...
Mas vamos lá, vou me expressar pela exemplificação.
Teve um caso que foi de amores diferentes, por toda parte. A minha nega de olhos de mar me ligou pedindo pra ir até o mar com ela, pra encontrar o brilho de seus olhos. Ela teve seu caso de paixão em alto mar, que palpitou no peito dela, mesmo depois de voltar pra terra firme. E ela queria mais... Então eu fui com ela até o porto procurar por ele. E tinha o nervoso do reencontro, o suor das mãos que se misturavam quando ela apertava a minha com tanta força que dava pra sentir o coração dela batendo ali mesmo, na palma das mãos.A angústia de não encontrá-lo, e a impaciência. E o êxtase quando se encontraram os olhares. Ambos os pares de olhar feitos com a água do mar. E eu ali de lado, com o livro aberto, espiando aquela cena bonita pelo canto do olho.
Depois veio aquela alegria toda que faz a gente cantar alto um samba na rua.
Tá aí o primeiro caso. A paixão surpreendida dele, a paixão fugaz dela, e o meu amor que estava por perto pra impedir que o mar roubasse qualquer gota de olhar.
Minha mãe sempre me lembra indignada, de quando eu era pequena e não dormia na minha cama. Eu, no meio da noite, ia pro quarto dos meus pais e me deitava entre eles. É, isso mesmo, no meio, o centro das atenções. Ela me colocava de volta na minha cama, e eu voltava. Então meus pais começaram a trancar a porta e eu não podia mais entrar, tinha que dormir na minha própria cama. Era uma criança carente, querendo amor. Meus pais, amantes ativos, querendo consumar o deles.
Ah, é amor também quando você fica agarrando seu namorado e vocês ficam que nem bestas dando gargalhadas escandalosas enquanto eu tento me concentrar. Lanço olhares mortais pra ver se vocês se tocam, e como vocês não o fazem ,sou obrigada, por amor mesmo, a entrar no meio pra participar.'' Quando o amor entrou no meio, o meio virou amor''.
Tem também eu e a minha irmã.Passamos o ano inteiro entre tapas e beijos. Mais tapas do que beijos pra falar a verdade. A gente se gosta, mas não pode se ver. As brigas são feias, e eu fico proferindo aquelas palavras de ódio que deixam qualquer pessoas de boca aberta. Mas esse ódio é passageiro. O natal na nossa família é bem bacana, e todo mundo tem que se abraçar e falar coisas legais um pro outro. E daí, eu, sempre zangada com minha irmã, fico planejando falar alguma coisa moralizante, alguma coisa que finja uma indiferença qualquer. Quando chega na nossa hora de abraçar o planinho babaca vai por água abaixo, eu choro muito e digo o quanto a amo. E amo mesmo. Esse é o nosso amor fraterno inegável e irredutível.
Acho que era amor também quando eu ficava cantando a oração da banda mais bonita da cidade, tentando curar todas as mágoas que aquele sorrisinho despretensioso me trouxe. Era amor sem reciprocidade, um amor instântaneo que se prolongou e quase invadiu as alas da eternidade. Da eterna rejeição, eterna falta de envolvimento, de conquista.Bobagem pensar que as lágrimas de amor serão doces. Elas são mais salgadas que qualquer outra.
e etc.,e etc.
No meu livro de auto ajuda vem dizendo que o amor está em todo lugar, e que eu sou amorosa e digna de amor. Só pode ser verdade. Que o amor acaba numa esquina e começa na outra.