Me bateu uma saudades daqueles dias que sozinha eu acordava porque a gaivota piava alto pra proteger o filhote e porque o sol já raiava forte desde o comecinho da manhã. Eu enfiava a cara por debaixo das cobertas pra tapar a luz, e quando eu achava que ia pegar no sono denovo a cachorrinha empurrava a porta daquele quarto que era na hora meu, e pulava em cima de mim fazendo bagunça. Daí eu percebia que já passava da minha hora de acordar mesmo, e ia cambaleando pro banheiro lavar o rosto, e sempre esquecia a toalha no quarto, e corria pra lá depois pra não pingar no chão.
Eu abria a cortina pra ver como estava o clima lá fora, e sempre via ventar muito, e até me assustava achando que ia passar frio. Depois de muita dúvida, colocava uma roupa e descia pra tomar café. Comia muito mais do que como por aqui, acho que por educação mesmo. O que eu queria era só tomar vários copos daquele suco de laranja de caixinha que eu não acreditava como era gostoso.
Depois de escovar os dentes e passar a maquiagem eu pegava a bolsa e a chave e ia esperar o onibus que nem demorava muito. Tinha aulas junto com as italianas que ficaram na memória afetiva, e com os turcos, com a dinamarquesa, com o polonês, com o espanhol, com o sueco, e com aquele russo novinho que me dava nos nervos. No intervalo das aulas eu sempre tomava aquele chá que eu aguava porque era muito forte, e colocava bastante açucar e as vezes leite pra ficar mais inglês.
As vezes eu pegava a bicleta no fundo do quintal e saia pra pedalar na beira da praia. Depois eu me jogava com a bicleta em cima das pedrinhas e sentia bater no rosto aquele vento que já deve ter soprado por aqui também.
Sempre rolava uma programação pra noite, e a gente se encontrava na frente do letreiro luminoso pra entrar na festa , onde a gente sempre encontrava as mesmas pessoas e ficava buscando uma embriaguez que no fundo era engraçada. Depois eu já queria dar megulho no mar e buscar as luzinhas que soltavam pro céu e que me encantavam tanto.
Até o fim dos dias eu tentei ensinar a ela a música bonita das águas de março, e ela se esforçava de verdade pra aprender, e cantava com um sotaque que me tirava sorriso dos lábios e que me enchia de alegria.
E tinha também os dias que eu pegava o trem e ia solitária mesmo pra todas aquelas cidades diferentes, onde eu chegava e ficava vagando e até que eu conseguia conhecer tudo muito bem.
Num dia eu voltei de uma das cidade que era longe longe, e que eu fiquei umas 3 ou 4 horas no trem, e fui direto da estação até o píer, correndo muito, que demorei bastante mesmo pra respirar normal denovo. Daí eu fui com aquele menino gentil e tolo e a menina dos olhos bonitos que combinavam com o sorriso, e que me ensinou a falar palavrão, naquele negócio que girava muito , deixava tudo de ponta cabeça e fazia parecer que eu ia mergulhar com tudo naquele mar escuro coberto de noite. E eu via todas as luzes da cidade de um jeito muito legal, que não saiu da minha cabeça.
Os dias passavam e eu curtia muito aquela vida que eu estava levando. Mas eu precisava ir embora. Comprei umas balas gostosas no mercado, e umas flores pra senhora, que no final das contas se encabulou demais e não tirou a foto que tinha prometido tirar comigo.
Do nada eu me vi atravessando de volta o oceano que pra mim é um só.O mundo já tinha girado inteiro, e eu voltava pro de antes. Fiquei arrepiada, e queria chorar todo aquele aperto de saudades prematuras que eu sentia no peito. As pernas tremeram muito, mas teve uma hora que elas pararam quietas e eu fui andando pra frente denovo, com um gostinho bom da vontade de lembrar.
terça-feira, 24 de maio de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Sob o céu
Acho que vai ser nas margens de um ex-marginalizado, o sol já cumprimentando a lua, cházinho na garrafa térmica, e na outra margem um saxofonista brincando de musicar. O que vai ser não sei. Talvez seja o cão da rua querendo chamego. A rosa caída, das mãos feridas. Chuva que não castiga. Lágrima despercebida. Estranha companhia. Rasgo na página já escrita...
domingo, 30 de janeiro de 2011
Quero ver o que voce faz
Vou é me mudar pra uma vilazinha, miúda o suficiente pra me certificar de que passeando meus olhos dariam de encontro aos seus.E o que voce faz? Ah, sorri pros olhos brilharem feito gota em petala de flor, flor laranja. E pega do chão a flor laranja pra confirmar a comparação. E poe a flor entre os dedos, como se fizessem parte das mãos. E me envolve em seus braços, fazendo de mim outra parte de ti. Fazemos belo o encontro dos corpos, no cantinho.Belo o encontro das bocas. Belo o encontro dos olhos que deu início ao ciclo infindável de encontros. Olhos nos olhos.
De metrô
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe aquela árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas,
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam o que realmente parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que meus sentidos aprenderam sozinhos:
-As coisas não tem significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe aquela árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas,
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam o que realmente parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que meus sentidos aprenderam sozinhos:
-As coisas não tem significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
O outro céu
Acontecia-me às vezes que tudo ia por si mesmo, abrandava-se e cedia terreno, aceitando sem resistência que se pudesse passar assim de uma coisa a outra. Digo que me acontecia, se bem que uma esperança estúpida me faça crer que ainda pode acontecer.
Cortázar
Cortázar
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
On the road
Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? - é o vasto mundo nos engolindo, é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo a próxima aventura louca sob o céu.
Kerouac
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Atrás de morsas
Saltitava pela rua,
como a menina dos contos de fada
em seu bosque.
Sorriso gritante,
pisoteava todas aquelas lágrimas
algumas lágrimas,
choradas por nínguem.
Ah, sim
ela há de ficar orgulhosa.
A banda dos 24 capuzes vermelhos,
tocando doces bobagens, por ali.
como a menina dos contos de fada
em seu bosque.
Sorriso gritante,
pisoteava todas aquelas lágrimas
algumas lágrimas,
choradas por nínguem.
Ah, sim
ela há de ficar orgulhosa.
A banda dos 24 capuzes vermelhos,
tocando doces bobagens, por ali.
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